Webmasters:
|
Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim.
Pois um dia descobri que era verdade sim, a coisa da lingerie. Mas não foi desse modo que você pode estar pensando. Foi assim: um dia, após a aula, falávamos sobre medo e ela me confidenciou que possuía um medo terrível, que surgiu no dia em que leu sobre um assalto a um banco onde os clientes foram feitos reféns dentro do cofre, todos em trajes íntimos. Ela ficara alarmada. Com a violência do caso? Não. Com a insegurança das agências? Que nada. – Já pensou você no meio de um bocado de gente estranha com uma calcinha rasgada? – ela me explicou, séria. – E se aparece uma equipe de tevê? Meu Deus, que vergonha!… Pois era esse seu terrível medo: ser pega desprevenida num assalto a banco com a calcinha rasgada, o sutian encardido, já pensou? Ruth então renovou toda a gaveta de peças íntimas e passou a ir aos bancos de lingerie, escolhida com esmero, afinal nunca se sabe quando seremos reféns. E assim minha vaidosa colega resolveu o problema. Mas imprevisto pode ocorrer em qualquer lugar, não é? Ruth se deu conta que poderia ser assaltada ou sequestrada na panificadora ou na esquina. Então estendeu sua prevenção a todos os lugares aonde ia. Fosse onde fosse, lá estava Ruth devidamente preparada, metida em sua bela lingerie, segura e confiante. Inclusive na faculdade? Na faculdade também, por que não?, ela confirmou. Achei a história bem divertida. Mas passei a achá-la mais fútil ainda. Um tempo depois Ruth deixou de ir às aulas. Liguei para ela e escutei uma história estranha. Ruth dizia que descobrira algo muito importante que estava mudando sua vida. Não entendi patavina. Ela usava termos como “insight” e “potencial de realização”, dizia que a vida era para ser vivida e repetiu várias vezes que as pessoas deviam sempre usar a melhor calcinha que tivessem. Ou algo assim. Não consegui levar a sério nada do que ela falou. Das duas uma: ou aquilo era tão profundamente filosófico que eu não podia alcançar ou então minha colega não estava bem do juízo. Fiquei com a segunda opção e desliguei, rindo de me imaginar de calcinha. Depois disso soube que ela abandonara o curso e perdemos o contato. Semanas atrás, surpresa!, eu a encontrei no shopping. Dez anos que não a via, quase não reconheci, tão diferente que estava. Mais bonita e com um astral contagiante. Preparei-me para escutar mais bobagens mas o que vi foi uma pessoa equilibrada e consciente. Conversamos, lembramos dos colegas e ela contou que vivia com um australiano em Melbourne e estava de férias. Brinquei com a tal história da lingerie e ela, rindo, disse que fora exatamente sua vaidade que a fez chegar à compreensão mais importante de sua vida. Foi aí que Ruth repetiu aquilo que me falara ao telefone dez anos antes e então, somente então, o profundo significado de sua experiência me atingiu. – Um dia tive um clarão repentino de compreensão – ela explicou. – Um insight tão forte que fiquei dias feito boba. Eu estava experimentando lingerie quando de repente, pá!, entendi tudo. É isso! É isso mesmo que eu tenho de fazer, viver cada momento com o melhor de mim! Entendi que estava agindo como o artista talentoso mas vaidoso, que só exibe o seu melhor se houver plateia. Ela prosseguiu dizendo que depois dessa revelação sua vida mudou radicalmente. Passou a lidar melhor com sua vaidade, largou a faculdade que não gostava, terminou um relacionamento que a limitava, juntou dinheiro e realizou seu grande sonho: foi à Austrália e conheceu o deserto, e lá viveu experiências tão gratificantes que decidiu ficar, no lugar que ela descobriu ser sua verdadeira casa e onde se sente feliz. Escutei com atenção e me senti envergonhado por não ter captado, daquela primeira vez, a profundidade de sua experiência. Ruth me parecia uma pessoa mais interessante. Ou eu é que realmente nunca a percebera? Ela contou que continuava vaidosa e ainda usava lingerie, sim, mas agora não era mais por medo de passar vergonha durante um assalto. – É porque a vida é para ser vivida do melhor modo em todos os momentos – ela esclareceu, sorridente. – Com o melhor espírito e o melhor sorriso. E a melhor calcinha. Colunista: Ricardo Kelmer 1 - 24/08/2010 ::: Ricardo Kelmer - Vinicius, embaixador da arte e do amor 2 - 24/03/2010 ::: Ricardo Kelmer - Insights e calcinhas 3 - 06/11/2009 ::: Ricardo Kelmer - CArma de mãe pra filha 4 - 24/09/2009 ::: Ricardo Kelmer - Você já sentiu o mundo de cabeça pra baixo 5 - 02/04/2009 ::: Ricardo Kelmer - Como afugentar um homem 6 - 28/07/2008 ::: Ricardo Kelmer - A vez dos que não bebem 7 - 15/02/2008 ::: Ricardo Kelmer - Destino e intuição 8 - 15/12/2007 ::: Ricardo Kelmer - Loiras ou morenas? 9 - 19/10/2007 ::: Ricardo Kelmer - O segredo é mais embaixo 10 - 03/09/2007 ::: Ricardo Kelmer - Medo de mulher 11 - 24/07/2007 ::: Ricardo Kelmer - Loiras, celulite e futebol 12 - 16/04/2007 ::: Ricardo Kelmer - A luzinha que não se apaga 13 - 03/03/2007 ::: Ricardo Kelmer - O mistério da morena turbinada - 2ª parte 14 - 24/01/2007 ::: Ricardo Kelmer - O mistério da morena turbinada - 1ª. parte 15 - 09/01/2007 ::: Ricardo Kelmer - Eu esfaqueei o deputado |
|||||||||||||||||||
|
|