Untitled Document

: Principal
: Fale Conosco
: Jogos Regionais
: Noticias On-line
: Eventos
: Livro de Visitas
: Turismo
: Mapa
: Empresas
: Colunistas
: Pagina da Prefeitura

 

 

12 Usuários On-Line

Webmasters:
Tel.(18)9709-9068
Tel.(17) 231-0642

 

.:: Ver Artigos.:: Ver Colunistas

Insights e calcinhas

Uma calcinha rasgada pode mudar a vida de uma mulher? Ruth descobriu que sim.

Ruth era uma folclórica colega da faculdade. Não muito bonita mas dona de uma vaidade enorme, dessas que nunca dispensam um batonzinho. Sempre impecável. O visual bem cuidado, a roupa certinha. Corria até o boato que ela ia para as aulas de lingerie. Apesar de achá-la um tanto fútil e não termos assuntos em comum, ficamos amigos.

Pois um dia descobri que era verdade sim, a coisa da lingerie. Mas não foi desse modo que você pode estar pensando. Foi assim: um dia, após a aula, falávamos sobre medo e ela me confidenciou que possuía um medo terrível, que surgiu no dia em que leu sobre um assalto a um banco onde os clientes foram feitos reféns dentro do cofre, todos em trajes íntimos. Ela ficara alarmada. Com a violência do caso? Não. Com a insegurança das agências? Que nada.

– Já pensou você no meio de um bocado de gente estranha com uma calcinha rasgada? – ela me explicou, séria. – E se aparece uma equipe de tevê? Meu Deus, que vergonha!…

Pois era esse seu terrível medo: ser pega desprevenida num assalto a banco com a calcinha rasgada, o sutian encardido, já pensou? Ruth então renovou toda a gaveta de peças íntimas e passou a ir aos bancos de lingerie, escolhida com esmero, afinal nunca se sabe quando seremos reféns. E assim minha vaidosa colega resolveu o problema.

Mas imprevisto pode ocorrer em qualquer lugar, não é? Ruth se deu conta que poderia ser assaltada ou sequestrada na panificadora ou na esquina. Então estendeu sua prevenção a todos os lugares aonde ia. Fosse onde fosse, lá estava Ruth devidamente preparada, metida em sua bela lingerie, segura e confiante. Inclusive na faculdade? Na faculdade também, por que não?, ela confirmou. Achei a história bem divertida. Mas passei a achá-la mais fútil ainda.

Um tempo depois Ruth deixou de ir às aulas. Liguei para ela e escutei uma história estranha. Ruth dizia que descobrira algo muito importante que estava mudando sua vida. Não entendi patavina. Ela usava termos como “insight” e “potencial de realização”, dizia que a vida era para ser vivida e repetiu várias vezes que as pessoas deviam sempre usar a melhor calcinha que tivessem. Ou algo assim. Não consegui levar a sério nada do que ela falou. Das duas uma: ou aquilo era tão profundamente filosófico que eu não podia alcançar ou então minha colega não estava bem do juízo. Fiquei com a segunda opção e desliguei, rindo de me imaginar de calcinha. Depois disso soube que ela abandonara o curso e perdemos o contato.

Semanas atrás, surpresa!, eu a encontrei no shopping. Dez anos que não a via, quase não reconheci, tão diferente que estava. Mais bonita e com um astral contagiante. Preparei-me para escutar mais bobagens mas o que vi foi uma pessoa equilibrada e consciente. Conversamos, lembramos dos colegas e ela contou que vivia com um australiano em Melbourne e estava de férias. Brinquei com a tal história da lingerie e ela, rindo, disse que fora exatamente sua vaidade que a fez chegar à compreensão mais importante de sua vida. Foi aí que Ruth repetiu aquilo que me falara ao telefone dez anos antes e então, somente então, o profundo significado de sua experiência me atingiu.

– Um dia tive um clarão repentino de compreensão – ela explicou. – Um insight tão forte que fiquei dias feito boba. Eu estava experimentando lingerie quando de repente, pá!, entendi tudo. É isso! É isso mesmo que eu tenho de fazer, viver cada momento com o melhor de mim! Entendi que estava agindo como o artista talentoso mas vaidoso, que só exibe o seu melhor se houver plateia.

Ela prosseguiu dizendo que depois dessa revelação sua vida mudou radicalmente. Passou a lidar melhor com sua vaidade, largou a faculdade que não gostava, terminou um relacionamento que a limitava, juntou dinheiro e realizou seu grande sonho: foi à Austrália e conheceu o deserto, e lá viveu experiências tão gratificantes que decidiu ficar, no lugar que ela descobriu ser sua verdadeira casa e onde se sente feliz.

Escutei com atenção e me senti envergonhado por não ter captado, daquela primeira vez, a profundidade de sua experiência. Ruth me parecia uma pessoa mais interessante. Ou eu é que realmente nunca a percebera? Ela contou que continuava vaidosa e ainda usava lingerie, sim, mas agora não era mais por medo de passar vergonha durante um assalto.

– É porque a vida é para ser vivida do melhor modo em todos os momentos – ela esclareceu, sorridente. – Com o melhor espírito e o melhor sorriso. E a melhor calcinha.

Colunista: Ricardo Kelmer
Área: Literatura e Internet
Inserida em: 24/03/2010 16:09




1 - 24/08/2010 ::: Ricardo Kelmer - Vinicius, embaixador da arte e do amor
2 - 24/03/2010 ::: Ricardo Kelmer - Insights e calcinhas
3 - 06/11/2009 ::: Ricardo Kelmer - CArma de mãe pra filha
4 - 24/09/2009 ::: Ricardo Kelmer - Você já sentiu o mundo de cabeça pra baixo
5 - 02/04/2009 ::: Ricardo Kelmer - Como afugentar um homem
6 - 28/07/2008 ::: Ricardo Kelmer - A vez dos que não bebem
7 - 15/02/2008 ::: Ricardo Kelmer - Destino e intuição
8 - 15/12/2007 ::: Ricardo Kelmer - Loiras ou morenas?
9 - 19/10/2007 ::: Ricardo Kelmer - O segredo é mais embaixo
10 - 03/09/2007 ::: Ricardo Kelmer - Medo de mulher
11 - 24/07/2007 ::: Ricardo Kelmer - Loiras, celulite e futebol
12 - 16/04/2007 ::: Ricardo Kelmer - A luzinha que não se apaga
13 - 03/03/2007 ::: Ricardo Kelmer - O mistério da morena turbinada - 2ª parte
14 - 24/01/2007 ::: Ricardo Kelmer - O mistério da morena turbinada - 1ª. parte
15 - 09/01/2007 ::: Ricardo Kelmer - Eu esfaqueei o deputado



Publicidade





Anuncie

ISAWeb Desenvolvimento - Tel.: (18)9709-9068 - isaweb@ilhasolteira.com.br - © 2010 Todos Direitos Reservados